Do Amor Ideal
ao
Sexo Virtual
Vivemos momentos de muitas mudanças em torno da sexualidade. A história ainda está para ser contada. Desde as mudanças em torno da sexualidade anunciada por Sigmund Freud no começo do século passado, até os nossos dias muitas coisas aconteceram. Passamos de um romantismo elevado a um esfacelamento do sentimento amoroso. Mas no que concerne às paixões e ao amor, as mudanças do tempo não foram suficientes para desautorizar as pessoas da sua capacidade de amar. Essas pessoas continuam amando independente do século, só que mesmo no amor as pessoas também inventam.
Se as mudanças do tempo traduzem as nossas formas de relação, é sabido que no alvorecer do século XXI outros dispositivos de relação compareceram. Novos paradigmas, novas conjunturas, novas formas de relacionamentos – como conviver com múltiplas possibilidades diante do amor? Responder a tal dilema pode ser tão crucial quanto ficar sem dá nenhuma resposta. Até por que acreditamos ter avançado, achamos que somos pós-moderno, mas temos dificuldades de aceitar o novo e de lidar de outras formas com questões um tanto quanto velhas que aparecem como novas.
Durante o século XIX o amor foi por demais idealizado, as moças esperavam mesmo um príncipe encantado, só que este príncipe era uma escolha do pai. As mulheres entendiam que era assim que as coisas do amor precisavam funcionar. Justamente por entenderem dessa forma, estavam certas que deveriam se apaixonar por este que foi escolhido pelo pai. Ter o marido que o pai escolheu era uma forma de garantir o desejo idealizado pela vontade de ter um homem feito como o pai – uma marca registrada do acontecimento edipiano, já que era mesmo o pai a única via de acesso ao gozo.
A homossexualidade no século XIX ainda era coisa obscura, classificada como bestialidade e possessão demoníaca ou coisa do gênero, casais homossexuais caminhavam de forma escondidas. A Era Vitoriana com seu tamanho puritanismo não deu lugar a este tipo de expressão do afeto. Sabe-se pela história de casais que viveram a homossexualidade ás escondidas, porém romântica e de certa forma idealizada. Até por que no meio de tanto repressão à única saída era repetir o modelo vigente – um amor idealizado e romântico. Foi esse mesmo modelo que casais da época vivenciavam seus sentimentos.
A passagem do século XIX para o século XX deixou o registro de vários avanços e mudanças. As guerras, as invenções, os avanços das tecnologias, a contracultura tudo isso produziu no século XX o que jamais havia sido produzido em nenhum outro momento da história. As mudanças no comportamento das pessoas, sobretudo no que se refere ao amor, ficaram evidentes na década de 60, quando caiu por terra uma série de costumes, vivências e mentalidades, produzindo outras formas de relacionamento, outras possibilidades de comparecer e outras maneiras de se constituir como pessoa.
O “é proibido proibir” deixou claro que romper com os velhos paradigmas repressores e ultrapassados eram matéria de urgência para qualquer adolescente e/ou adulto-jovem da época. Muitos casais para manterem-se juntos depois de anos de vida conjugal, precisaram também repensar sua forma de relacionarem, afim de continuarem bancando a relação.
A contracultura, os avanços tecnológicos, as ditaduras, o capitalismo etc., trouxeram ao século XX uma série de indagações. A percepção de que terminaríamos o século XX em crises de várias ordens, era um fator evidente para qualquer estudioso do comportamento, bem como para qualquer pessoa. A verdade é que toda crise nos convoca para uma mudança de vida frente às coisas. As crises são sempre uma pausa, um aviso de a caminhada necessita ser revista e atualizada.
O avanço dos meios de comunicação de massa, a descoberta da internet e a democratização da mesma, possibilitou o acesso de todos às redes de relacionamentos, às comunicações cibernéticas trazendo a tona outras possibilidades. O século XXI começou acolhendo as crises do século XX – casamentos conflituosos, liberdade sexual, casamento gay, novas configurações familiares, mudança de parceiro amoroso, vários parceiros etc. Os conflitos no amor do final do século passado deram origem a uma nova maneira de estreitar os vínculos – o relacionamento virtual.
Os relacionamentos virtuais, as salas de bate-papo, as distâncias das pessoas, a falta de tempo para se encontrar etc., legitima uma nova ordem no que se refere às relações. O surgimento do orkut, do faceboock, das rede sociais de grande massa, possibilitou agilidade e rapidez ao conhecer e encontrar as pessoas. A praça pública do passado, local dos casais se flertarem deram lugar a praça pública do faceboock, do orkut etc., verdadeiros espaços de encontros, desencontros e trocas.
O sexo virtual é moda e já se tornou instituição. Não se pode negar e muito menos olhar para isso de forma preconceituosa. Pessoas carentes, distantes cada vez mais uma das outras ou mesmo curiosos de diversas formas, tem feito também a opção de se encontrarem intimamente pela internet. Talvez seja por isso que amor ideal seja algo tão descabido e ultrapassado nos dias atuais, quando as pessoas se encontram de forma tão rápido pela telinha do computador com o auxilio da webcam.
Acredito que a melhor forma de tratar o fenômeno (tão presente nas virtualidades), é acolhê-lo de forma aberta e sem preconceitos. Sobretudo tornando possível às pessoas, avaliarem a significação, a importância que isso tem para elas. De uma coisa não podemos furtar, o século XXI nos convoca a construirmos outras possibilidades de olhar e lidar com tudo isso. Preconceitos, imposições, repressões etc., nos atrasam e nos impossibilitam de discutir as coisas com lucidez e maturidade.
Patrick de Oliveira – É Psicanalista
patrickpsicanalise@uol.com.br





Nenhum comentário:
Postar um comentário